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segunda-feira, dezembro 21, 2009

"Natal e não Dezembro"



Presépio
Ferreira da Silva

Natal, e não Dezembro

Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.
Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
De mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.


David Mourão-Ferreira
Cancioneiro de Natal

















Natividade
Armando Correia





Falavam-me de Amor


Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,

menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.

Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.


O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.


Natália Correia
O Dilúvio e a Pomba
Lisboa, Publicações D. Quixote, 1979



Presépio
Armando Correia, 2006

Desejo-vos um 2010 feliz!

sexta-feira, abril 03, 2009

Alguns nomes começam por R

"este mar ar
que navegamos
onde estamos
aqui
azul
onde vamos em luas de luar
e nuvens trespassadas
de cardos nocturnos
delirantes
aqui
sentados
à espera
que passem os pássaros
migradores
e seguir os argonautas"

Armando Correia, 2007

Quarta-feira, dia 1 de Abril, estava longe de aquela conversa de mar e pesca, de Peniche e alegrias seria uma despedida tão próxima. Dizia-me o Renato que estava mal, dizia que tinha as mãos frias, que eu em vão tentei aquecer. Sabiamo-nos amigos e eu sobretudo de tanta companhia que me fez e tanto que procurou saber os males raros que me afligiram há anos. Depois, vizinhos, cruzávamos-nos quase que diariamente. Pois foi por entre nabos, couves e hortaliças que nós dissemos adeus. O Renato disse-me que ainda tinha muito para falar sobre o Armando (Correia) e nos havíamos de encontrar.
Hoje ao ler o poema do Armando esperancei que se estivessem a encontrar.

Pedro Caldeira Cabral - Balada da Oliveira

quinta-feira, julho 17, 2008

AMOR EM VISITA


Escultura de Armando Correia
(...)
Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.
(...)
Herbérto Helder