quarta-feira, outubro 15, 2008

Música Pintada, Henri Matisse (1869-1954)

Jazz (1947) é um livro com cerca de cem gravuras feitas com base em recortes de papel. Os temas são o teatro e o circo. A linha de orientação, a improvisão, daí Jazz.
O artista escreveu em 1947 a um amigo " Existem coisas maravilhosas no verdadeiro jazz, o talento de improvisar, a vivência, do músico e do público tornarem-se apenas num".


Ícarus
1947
da série "Jazz"


O Destino
Plate XVI da série "Jazz"
O Lançador de facas
XV da série "Jazz"
O Circo
Plate II da série"Jazz"

Charlie Parker & Dizzy Gillespie


Música Pintada

"Música pintada" foi uma recolha feita no ano passado numa homenagem à pintura e à música.
A vossa ajuda será bem vinda.

sábado, outubro 11, 2008


vai assim de fundo negro dos meus olhos
escrito cor de vinho embebedado
vai assim como um tango colado
um swing molhado
vai assim em forma de beijo-mel
uma boca para tocar
um lábio por morder
um dedo para te desenhar no meu corpo
vai assim, aqui todo o meu afecto
que rebenta no meu peito
e canta e chora
a dançar, sempre a dançar
numa nuvem, numa estrela
procurando o meu par
E a lua pasmada a olhar
numa fase de amor crescente
sempre numa fase cheia
de saudades
que não vêem fases minguantes



m.

sexta-feira, outubro 10, 2008

"Para entender nós temos dois caminhos"


"Para entender nós temos dois caminhos:

o da sensibilidade que é o entendimentodo corpo;e o da inteligência que é o entendimentodo espírito.Eu escrevo com o corpo.Poesia não é para compreender,

mas para incorporar.Entender é parede; procure ser árvore."


Manuel de Barros


quinta-feira, outubro 09, 2008

terça-feira, setembro 02, 2008

"Fotografam tudo o que lhes agrada, mesmo o que nada diz ao olhar desprevenido dos outros: o entrelaçar das silvas e dos tojos na vertente semiobscura onde os ramos dos zambujeiros se inclimam até ao solo; a nudez das oliveiras velhas contra a lua; o reflexo projectado no chão por aqueles arbustros de um branco esverdeado, de que eles não sabem o nome; o manto vermelho, o fulgor dos peixes, em rápidos voos, no tanque onde Lionel diz ter plantado sonhos na infância."

in Urbano Tavares Rodrigues
A Bela e o Monstro, publicado em Carnaval Negro, Edições ASA

domingo, agosto 10, 2008

Origem dos sonhos esquecidos


Entre a bicicleta e a laranja
vai a distância de uma camisa branca
Entre o pássaro e a bandeira
vai a distância dum relógio solar
Entre a janela e o canto do lobo
vai a distância dum lago desesperado
Entre mim e a bola de bilhar
vai a distância dum sexo fulgurante
Qualquer pedaço de floresta ou tempestade
pode ser a distância
entre os teus braços fechados em si mesmos
e a noite encontrada para além do grito das panteras
qualquer grito de pantera
pode ser a distância
entre os teus passos
e o caminho em que eles se desfazem lentamente
Qualquer caminho
pode ser a distância
entre tu e eu
Qualquer distância
entre tu e eu
é a única e magnífica existência
do nosso amor que se devora sorrindo

Mário Henrique Leiria
in A Única Real Tradição Viva
Perfecto E. Cuadrado
Antologia da Poesia Surrealista Portuguesa
Assírio & Alvim
1998

óleos de Tuner

Luar, 1840
Paz, 1842

Sombras na escuridão, 1843


quinta-feira, agosto 07, 2008

"AS COORDENADAS LÍRICAS"


Lagoa de Óbidos, Agosto 2008



"Desviou-se o paralelo um quase nada


e tudo escureceu:


era luz disfarçada em madrugada


a luz que me envolveu




A geométrica forma de meus passos


procura um mar redondo.


Levo comigo, dentro dos meus braços,


oculto, todo o mundo.




Sozinha já não vou. Apenas fujo às negras emboscadas.


Em cada esfera desenho o meu refúgio


— as minhas coordenadas."


FERNANDA BOTELHO
de Coordenadas Líricas

quinta-feira, julho 24, 2008

"As coisas assim a gente não perde nem abarca"

Lagoa de Óbidos, 24.07.08, 22h



"As coisas assim a gente não perde nem abarca.
Cabem é no brilho da noite.
Aragem do sagrado.
Absolutas estrelas".

João Guimarães Rosa


"Infelicidade é questão de prefixo."

João Gomes Rosa


"Qualquer amor é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura."

João Guimarães Rosa

Imogen Cunningham
The Unmade Bed
1957

quinta-feira, julho 17, 2008

AMOR EM VISITA


Escultura de Armando Correia
(...)
Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.
(...)
Herbérto Helder

Encomenda


"Desejo uma fotografia

como esta — o senhor vê? —
como esta: em que para sempre me ria
como um vestido de eterna festa.
Como tenho a testa sombria,

derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga,
que me empresta um certo ar de sabedoria.
Não meta fundos de floresta

nem de arbitrária fantasia...
Não...
Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia."

Cecília Meireles

Quinta


o cheiro do laranjal ali ao lado
o barulho da água que corre solta
a minha vida tanto aqui


terça-feira, junho 24, 2008

"Câmara Escura"





"Devagar,
Hora a hora,
Dia a dia,
Como se o tempo fosse um banho de acidez,
Vou vendo com mais funda nitidez
O negativo da fotografia.
E o que eu sou por detrás do que pareço!
Que seguida traição desde o começo,
Em cada gesto,
Em cada grito,
Em cada verso!
Sincero sempre, mas obstinado
Numa sinceridade
Que vende ao mesmo preço
O direito e o avesso
Da verdade."
Miguel Torga

segunda-feira, junho 16, 2008




(...) É desse lugar iluminado que, hoje, vos falo. Fui ter com um fotógrafo meu amigo e pedi-lhe para me retratar. Ele acendeu um foco de luz. Sentei-me no centro dele. A máquina disparou sem cessar. Gesticulei, abri os braços, mexi-me muito - como se soubesse que nunca mais o voltaria a fazer. Quando o meu amigo mergulhou o papel fotográfico no revelador, eu também mergulhei. Mas devo ter desmaiado uns segundos, talvez minutos, porque ao retomar consciência senti as pernas e os braços dormentes - e todo o meu corpo estava mole. Um véu de luz toldou-me a visão. Ceguei por instantes, mas não foi uma sensação desagradável. Depois, o corpo começou a ondear, a impregnar-se no papel e a coincidir com o retrato que o meu amigo fizera de mim. Segundos mais tarde uma pinça metálica tirava-me do revelador. Senti, então, a frescura da água - e toda a superfície da folha de papel, o meu novo corpo, brilhou. Em seguida deixei-me entorpecer na temperatura tépida, voluptuosa, do fixador. Tinha encontrado o esconderijo. (...)

AL BERTO

de O esconderijo do homem triste

Jacarandás



«No meio desta ansiedade, uma notícia ajuda a dormir em paz. Uma só certeza: a de que os jacarandás voltaram! Esta semana, apesar da seca e mau grado o clima errático, que provocaram um estado vegetativo desequilibrado, os jacarandás floriram. Nas Trinas e nas Praças, na D. Carlos I e no Salitre, na Burra e em Belém, apareceram, tímidos e frágeis. Já não era sem tempo. Lisboa precisa de cor. Isto precisa de esperança.»
António Barreto (Publico, 15-05-05)


"Tempo
de seus passos vindo
pelo tapete de roxas flores
dos jacarandás enfileirados na rua.
Hoje
é eterno o ontem
da silhueta de Maria
caminhando no asfalto da memória
em nebuloso pé ante pé do tempo.
... Todo o tempo
colar de missangas ao pescoço
sempre o tempo todo
suruma minha suruma da saudade.
Suruma daquela saudade
das flores dos jacarandás
nos passos de Maria."
José Craveirinha









segunda-feira, março 31, 2008


Os teclados


"(...)Tudo ficava suspenso, no vazio. E depois o som acontecia: a chuva, o vento, o mar. O vento nas folhas, no caminho de terra, nos telhados, na chuva. Agora (...) ouvia a chuva, as formas fugidias da água. (...) Gostava de vaguear (...), ouvindo o que havia para ouvir – buzinas de carros, vozes, motores, barulho de oficinas, pancadas mecânicas, chapas de metal zunindo, portas batendo, passos de pessoas na calçada. Por vezes música articulada, no meio dos sons: o canto alto de um pregão atirado ao ar, um trilo de pássaro, o assobio do amolador de tesouras, o acordeão de um cego numa esquina.Mas tudo o resto – buzinas, vozes, sirenes, máquinas, - podia ser também uma forma de música. E mesmo o silêncio fazia parte de ouvir – o silêncio entre uma coisa e outra, a respiração ou a pausa, antes que outra coisa acontecesse.Ouvir era deixar o mundo entrar em si. (...)"

TEOLINDA GERSÃO

Os teclados

terça-feira, fevereiro 19, 2008

RX de plantas Albert Koetsier






"Jardim Perdido"

Jardim Perdido
Jardim em flor, jardim de impossessão,
Transbordante de imagens mas informe,
Em ti se dissolveu o mundo enorme,
Carregado de amor e solidão.
A verdura das arvores ardia,
O vermelho das rosas transbordava
Alucinado cada ser subia
Num tumulto em que tudo germinava.
A luz trazia em si a agitação
De paraísos, deuses e de infernos,
E os instantes em ti eram eternos
De possibilidades e suspensão.
Mas cada gesto em ti se quebrou, denso
Dum gesto mais profundo em si contido,
Pois trazias em ti sempre suspenso
Outro jardim possível e perdido.

Sophia de Mello Breyner Andresen

RX de plantas Albert Koetsier





"Limpo Palavras"

Limpo palavras.
Recolho-as à noite, por todo o lado:
a palavra bosque, a palavra casa, a palavra flor.
Trato delas durante o dia
enquanto sonho acordado.
A palavra solidão faz-me companhia.

Quase todas as palavras
precisam de ser limpas e acariciadas:
a palavra céu, a palavra nuvem, a palavra mar.
Algumas têm mesmo de ser lavadas,é preciso raspar-lhes a sujidade dos dias
e do mau uso.
Muitas chegam doentes,outras simplesmente gastas,
estafadas,dobradas pelo peso das coisas
que trazem às costas.

A palavra pedra pesa como uma pedra.
A palavra rosa espalha o perfume no ar.
A palavra árvore tem folhas, ramos altos.
Podes descansar à sombra dela.
A palavra gato espeta as unhas no tapete.
A palavra pássaro abre as asas para voar.
A palavra coração não pára de bater.
Ouve-se a palavra canção.
A palavra vento levanta os papeis no ar
e é preciso fechá-la na arrecadação.

No fim de tudo voltam os olhos para a luz
e vão para longe,
leves palavras voadoras
sem nada que as prenda à terra,
outra vez nascidas pela minha mão:
a palavra estrela, a palavra ilha, a palavra pão.

A palavra obrigado agradece-me.
As outras não.
A palavra adeus despede-se.
As outras já lá vão, belas palavras lisas
e lavadas como seixos do rio:
a palavra ciúme, a palavra raiva, a palavra frio.

Vão à procura de quem as queira dizer,
de mais palavras e de novos sentidos.
Basta estenderes a mão para apanhares
a palavra barco ou a palavra amor.
Limpo palavras.
A palavra búzio, a palavra lua, a palavra palavra.
Recolho-as à noite, trato delas durante o dia.
A palavra fogão cozinha o meu jantar.
A palavra brisa refresca-me.
A palavra solidão faz-me companhia.

ÁLVARO MAGALHÃES
O Limpa-Palavras e Outros Poemas

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Lee Miller

1937
'Portrait of space'
Near Siwa Egypt

segunda-feira, janeiro 07, 2008

"Vadiara feliz ou infeliz"

(Telhados do Montijo. Vista do quarto do Luiz Pacheco, 07-08-2007)

“Dormira, decerto. Um longo sono cansado. Como um gato, um vadio de um gato, saíra pelos campos fora, correndo parando dormindo por ruas e escadas, portas e telhados, descera andara perdera-se é possível, vadiara feliz ou infeliz – como um gato.”

(Luiz Pacheco, Exercícios de Estilo, Editorial Estampa, Lisboa, 1971, livro que comprei nesse ano e que me custou 70 paus!)


sexta-feira, janeiro 04, 2008

"A poesia é voar fora da asa"

Foz do Arelho, 4 de Janeiro de 2008

Lua


Rumo certo para a Sofia
















Hoje ao fim da tarde na Foz do Arelho.

Gansos patolas?

Não corvos marinhos. Obrigada Sofia, conhecedora destes e de outros assuntos escreveu:

"Corvo Marinho de faces brancas, nome cientí­fico: Phalacrocorax carbo. Rumo a norte, ao fim do dia, na Foz... " Quem sabe e eu agradeço.

Esta fotografia fica-te dedicada tu que rasgas horizontes e vais construindo com o teu trabalho de qualidade o mundo um bocadinho melhor.

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Plano


Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amorque se despeja no copo da vida, até meio, como seo pudéssemos beber de um trago. No fundo,como o vinho turvo, deixa um gosto amargo naboca. Pergunto onde está a transparência dovidro, a pureza do líquido inicial, a energiade quem procura esvaziar a garrafa; e a respostasão estes cacos que nos cortam as mãos, a mesada alma suja de restos, palavras espalhadasnum cansaço de sentidos. Volto, então, à primeirahipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,esperando que o tempo encha o copo até cima,para que o possa erguer à luz do teu corpoe veja, através dele, o teu rosto inteiro.


Nuno Júdice

terça-feira, dezembro 18, 2007

Leio-te

Leio-te nos olhos a palavra amor,
aquela que celebram os poetas,
aquela que habita em mim
na casa do nosso encontro.

quinta-feira, dezembro 06, 2007

"Quando um ramo de doze badaladas"





"Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,
menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.
Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.
O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado."
Natália Correia
Poesia Completa
Publicações Dom Quixote
1999

"O amor é o amor"





"O amor é o amor
O amor é o amor - e depois?!
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?..
O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!
Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor,
e trocamos - somos um? somos dois? -
espírito e calor!
O amor é o amor - e depois?!"


Alexandre O´Neill
Poesias Completas1951/1981
Biblioteca de Autores Portugueses
Imprensa Nacional Casa da Moeda