Divagando por aí.... Pescar palavras, ideias, imagens com sentido, sem sentido, mas sempre, sempre com os sentidos à flor da pele. Às fotografias e textos que vou fazendo, igualmente junto coisas que gosto. De amigos, ou de pessoas que admiro. Por aqui viverá a textura da minha pele. Por aqui escorrerá a minha vida.
Jardim Perdido Jardim em flor, jardim de impossessão, Transbordante de imagens mas informe, Em ti se dissolveu o mundo enorme, Carregado de amor e solidão. A verdura das arvores ardia, O vermelho das rosas transbordava Alucinado cada ser subia Num tumulto em que tudo germinava. A luz trazia em si a agitação De paraísos, deuses e de infernos, E os instantes em ti eram eternos De possibilidades e suspensão. Mas cada gesto em ti se quebrou, denso Dum gesto mais profundo em si contido, Pois trazias em ti sempre suspenso Outro jardim possível e perdido.
Limpo palavras. Recolho-as à noite, por todo o lado: a palavra bosque, a palavra casa, a palavra flor. Trato delas durante o dia enquanto sonho acordado. A palavra solidão faz-me companhia.
Quase todas as palavras precisam de ser limpas e acariciadas: a palavra céu, a palavra nuvem, a palavra mar. Algumas têm mesmo de ser lavadas,é preciso raspar-lhes a sujidade dos dias e do mau uso. Muitas chegam doentes,outras simplesmente gastas, estafadas,dobradas pelo peso das coisas que trazem às costas.
A palavra pedra pesa como uma pedra. A palavra rosa espalha o perfume no ar. A palavra árvore tem folhas, ramos altos. Podes descansar à sombra dela. A palavra gato espeta as unhas no tapete. A palavra pássaro abre as asas para voar. A palavra coração não pára de bater. Ouve-se a palavra canção. A palavra vento levanta os papeis no ar e é preciso fechá-la na arrecadação.
No fim de tudo voltam os olhos para a luz e vão para longe, leves palavras voadoras sem nada que as prenda à terra, outra vez nascidas pela minha mão: a palavra estrela, a palavra ilha, a palavra pão.
A palavra obrigado agradece-me. As outras não. A palavra adeus despede-se. As outras já lá vão, belas palavras lisas e lavadas como seixos do rio: a palavra ciúme, a palavra raiva, a palavra frio.
Vão à procura de quem as queira dizer, de mais palavras e de novos sentidos. Basta estenderes a mão para apanhares a palavra barco ou a palavra amor. Limpo palavras. A palavra búzio, a palavra lua, a palavra palavra. Recolho-as à noite, trato delas durante o dia. A palavra fogão cozinha o meu jantar. A palavra brisa refresca-me. A palavra solidão faz-me companhia.