Thursday, July 24, 2008

"As coisas assim a gente não perde nem abarca"

Lagoa de Óbidos, 24.07.08, 22h



"As coisas assim a gente não perde nem abarca.
Cabem é no brilho da noite.
Aragem do sagrado.
Absolutas estrelas".

João Guimarães Rosa


"Infelicidade é questão de prefixo."

João Gomes Rosa


"Qualquer amor é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura."

João Guimarães Rosa

Imogen Cunningham
The Unmade Bed
1957

Thursday, July 17, 2008

AMOR EM VISITA


Escultura de Armando Correia
(...)
Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.
(...)
Herberto Helder

Encomenda


"Desejo uma fotografia

como esta — o senhor vê? —
como esta: em que para sempre me ria
como um vestido de eterna festa.
Como tenho a testa sombria,

derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga,
que me empresta um certo ar de sabedoria.
Não meta fundos de floresta

nem de arbitrária fantasia...
Não...
Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia."

Cecília Meireles

Quinta


o cheiro do laranjal ali ao lado
o barulho da água que corre solta
a minha vida tanto aqui


Tuesday, June 24, 2008

"Câmara Escura"





"Devagar,
Hora a hora,
Dia a dia,
Como se o tempo fosse um banho de acidez,
Vou vendo com mais funda nitidez
O negativo da fotografia.
E o que eu sou por detrás do que pareço!
Que seguida traição desde o começo,
Em cada gesto,
Em cada grito,
Em cada verso!
Sincero sempre, mas obstinado
Numa sinceridade
Que vende ao mesmo preço
O direito e o avesso
Da verdade."
Miguel Torga

Monday, June 16, 2008




(...) É desse lugar iluminado que, hoje, vos falo. Fui ter com um fotógrafo meu amigo e pedi-lhe para me retratar. Ele acendeu um foco de luz. Sentei-me no centro dele. A máquina disparou sem cessar. Gesticulei, abri os braços, mexi-me muito - como se soubesse que nunca mais o voltaria a fazer. Quando o meu amigo mergulhou o papel fotográfico no revelador, eu também mergulhei. Mas devo ter desmaiado uns segundos, talvez minutos, porque ao retomar consciência senti as pernas e os braços dormentes - e todo o meu corpo estava mole. Um véu de luz toldou-me a visão. Ceguei por instantes, mas não foi uma sensação desagradável. Depois, o corpo começou a ondear, a impregnar-se no papel e a coincidir com o retrato que o meu amigo fizera de mim. Segundos mais tarde uma pinça metálica tirava-me do revelador. Senti, então, a frescura da água - e toda a superfície da folha de papel, o meu novo corpo, brilhou. Em seguida deixei-me entorpecer na temperatura tépida, voluptuosa, do fixador. Tinha encontrado o esconderijo. (...)

AL BERTO

de O esconderijo do homem triste

Jacarandás



«No meio desta ansiedade, uma notícia ajuda a dormir em paz. Uma só certeza: a de que os jacarandás voltaram! Esta semana, apesar da seca e mau grado o clima errático, que provocaram um estado vegetativo desequilibrado, os jacarandás floriram. Nas Trinas e nas Praças, na D. Carlos I e no Salitre, na Burra e em Belém, apareceram, tímidos e frágeis. Já não era sem tempo. Lisboa precisa de cor. Isto precisa de esperança.»
António Barreto (Publico, 15-05-05)


"Tempo
de seus passos vindo
pelo tapete de roxas flores
dos jacarandás enfileirados na rua.
Hoje
é eterno o ontem
da silhueta de Maria
caminhando no asfalto da memória
em nebuloso pé ante pé do tempo.
... Todo o tempo
colar de missangas ao pescoço
sempre o tempo todo
suruma minha suruma da saudade.
Suruma daquela saudade
das flores dos jacarandás
nos passos de Maria."
José Craveirinha









Monday, March 31, 2008


Os teclados


"(...)Tudo ficava suspenso, no vazio. E depois o som acontecia: a chuva, o vento, o mar. O vento nas folhas, no caminho de terra, nos telhados, na chuva. Agora (...) ouvia a chuva, as formas fugidias da água. (...) Gostava de vaguear (...), ouvindo o que havia para ouvir – buzinas de carros, vozes, motores, barulho de oficinas, pancadas mecânicas, chapas de metal zunindo, portas batendo, passos de pessoas na calçada. Por vezes música articulada, no meio dos sons: o canto alto de um pregão atirado ao ar, um trilo de pássaro, o assobio do amolador de tesouras, o acordeão de um cego numa esquina.Mas tudo o resto – buzinas, vozes, sirenes, máquinas, - podia ser também uma forma de música. E mesmo o silêncio fazia parte de ouvir – o silêncio entre uma coisa e outra, a respiração ou a pausa, antes que outra coisa acontecesse.Ouvir era deixar o mundo entrar em si. (...)"

TEOLINDA GERSÃO

Os teclados

Tuesday, February 19, 2008

RX de plantas Albert Koetsier






"Jardim Perdido"

Jardim Perdido
Jardim em flor, jardim de impossessão,
Transbordante de imagens mas informe,
Em ti se dissolveu o mundo enorme,
Carregado de amor e solidão.
A verdura das arvores ardia,
O vermelho das rosas transbordava
Alucinado cada ser subia
Num tumulto em que tudo germinava.
A luz trazia em si a agitação
De paraísos, deuses e de infernos,
E os instantes em ti eram eternos
De possibilidades e suspensão.
Mas cada gesto em ti se quebrou, denso
Dum gesto mais profundo em si contido,
Pois trazias em ti sempre suspenso
Outro jardim possível e perdido.

Sophia de Mello Breyner Andresen

RX de plantas Albert Koetsier





"Limpo Palavras"

Limpo palavras.
Recolho-as à noite, por todo o lado:
a palavra bosque, a palavra casa, a palavra flor.
Trato delas durante o dia
enquanto sonho acordado.
A palavra solidão faz-me companhia.

Quase todas as palavras
precisam de ser limpas e acariciadas:
a palavra céu, a palavra nuvem, a palavra mar.
Algumas têm mesmo de ser lavadas,é preciso raspar-lhes a sujidade dos dias
e do mau uso.
Muitas chegam doentes,outras simplesmente gastas,
estafadas,dobradas pelo peso das coisas
que trazem às costas.

A palavra pedra pesa como uma pedra.
A palavra rosa espalha o perfume no ar.
A palavra árvore tem folhas, ramos altos.
Podes descansar à sombra dela.
A palavra gato espeta as unhas no tapete.
A palavra pássaro abre as asas para voar.
A palavra coração não pára de bater.
Ouve-se a palavra canção.
A palavra vento levanta os papeis no ar
e é preciso fechá-la na arrecadação.

No fim de tudo voltam os olhos para a luz
e vão para longe,
leves palavras voadoras
sem nada que as prenda à terra,
outra vez nascidas pela minha mão:
a palavra estrela, a palavra ilha, a palavra pão.

A palavra obrigado agradece-me.
As outras não.
A palavra adeus despede-se.
As outras já lá vão, belas palavras lisas
e lavadas como seixos do rio:
a palavra ciúme, a palavra raiva, a palavra frio.

Vão à procura de quem as queira dizer,
de mais palavras e de novos sentidos.
Basta estenderes a mão para apanhares
a palavra barco ou a palavra amor.
Limpo palavras.
A palavra búzio, a palavra lua, a palavra palavra.
Recolho-as à noite, trato delas durante o dia.
A palavra fogão cozinha o meu jantar.
A palavra brisa refresca-me.
A palavra solidão faz-me companhia.

ÁLVARO MAGALHÃES
O Limpa-Palavras e Outros Poemas

Sunday, February 10, 2008

E ainda mais casas de Egon Sciele





Mais casas de Egon Schiele






Casas de Egon Schiele