segunda-feira, junho 16, 2008




(...) É desse lugar iluminado que, hoje, vos falo. Fui ter com um fotógrafo meu amigo e pedi-lhe para me retratar. Ele acendeu um foco de luz. Sentei-me no centro dele. A máquina disparou sem cessar. Gesticulei, abri os braços, mexi-me muito - como se soubesse que nunca mais o voltaria a fazer. Quando o meu amigo mergulhou o papel fotográfico no revelador, eu também mergulhei. Mas devo ter desmaiado uns segundos, talvez minutos, porque ao retomar consciência senti as pernas e os braços dormentes - e todo o meu corpo estava mole. Um véu de luz toldou-me a visão. Ceguei por instantes, mas não foi uma sensação desagradável. Depois, o corpo começou a ondear, a impregnar-se no papel e a coincidir com o retrato que o meu amigo fizera de mim. Segundos mais tarde uma pinça metálica tirava-me do revelador. Senti, então, a frescura da água - e toda a superfície da folha de papel, o meu novo corpo, brilhou. Em seguida deixei-me entorpecer na temperatura tépida, voluptuosa, do fixador. Tinha encontrado o esconderijo. (...)

AL BERTO

de O esconderijo do homem triste

4 comentários:

Luis Eme disse...

fabuloso... este Al Berto.

o das caldas disse...

Há mas a foto está espectacular ou melhor a fotografada está cada vez mais linda.

o das caldas disse...

Perdão "Ah".-

João Castela Cravo disse...

Acho que nunca tinha aqui vindo... Pronto, tenho que ter um castigo!

Estou a gostar e prometo voltar mais vezes!